Abstract:
A violação sexual perpetrada em adolescentes representa uma séria crise
de saúde pública, agravado pelo risco elevado de infecção pelo HIV. A profilaxia pós-
exposição constitui uma intervenção de urgência fundamental para reduzir esse risco,
sendo o seguimento clínico essencial para garantir sua eficácia. Objectivo: Este estudo
teve como objectivo determinar a proporção de adolescentes vítimas de violação sexual
assistidas no Hospital Geral de Mavalane entre 2020 e 2022 que completaram o
seguimento clínico de três meses após o início da profilaxia pós-exposição, e analisar
factores associados à conclusão desse seguimento. Métodos: A investigação adoptou
um desenho observacional analítico, caracterizado como um estudo de coorte
retrospectivo. A colecta de dados utilizou fontes secundárias de raparigas adolescentes
atendidas entre Março de 2020 a Setembro de 2022. A coorte final incluiu 322 casos.
Efectuou-se análise descritiva e a aplicação do teste de Qui-quadrado ou exacto de
Fisher. A avaliação da associação entre factores explicativos e o desfecho, a análise foi
feita por regressão de Poisson com estimadores robustos, reportando-se riscos relativos
e IC de 95% e com nível de significância α = 5%. Resultados: Dos 322 casos incluídos,
entre as que não iniciaram, todas abandonaram o seguimento. Dos 155 (48,1%)
iniciaram a profilaxia pós-exposição e, destes, apenas 28 (18,1%) completaram o
seguimento clínico, correspondendo a 8,7% da amostra total. O número de agressores
mostrou associação significativa: vítimas de mais de um agressor apresentaram quase
três vezes mais chances de concluir o seguimento em comparação às de um único
agressor (RR = 2,90; IC95%: 1,37–6,14; p = 0,005). O tempo de chegada também foi
determinante: todas as adolescentes que completaram o seguimento haviam procurado
atendimento nas primeiras 72 horas após a violação (χ2 = 26,41; p < 0,001). Inexistiu
correlação estatisticamente significativa entre a conclusão do seguimento e a idade,
escolaridade ou relação com o agressor (p > 0,05). Conclusão: Intervenções
programáticas, políticas e académicas são urgentes para promover acolhimento
humanizado, reduzir o estigma, capacitar equipas de saúde e criar mecanismos de
retenção para o alcance da eficácia da estratégia de profilaxia pós- exposição