Abstract:
O presente estudo analisa o contributo da educação ambiental na redução de riscos de desastres
(RRD) com enfoque nas acções antecipatórias (AA) no distrito de Mocuba, província da
Zambézia, Moçambique. Este distrito tem sido ciclicamente afectado por fenómenos climáticos
extremos, nomeadamente cheias e ciclones, que comprometem a segurança, os meios de
subsistência e a resiliência das comunidades locais. Reconhecendo a vulnerabilidade estrutural
da região, o estudo propõe a educação ambiental como instrumento catalisador de mudança de
comportamento e de fortalecimento da capacidade comunitária de resposta aos desastres. A
investigação adoptou uma abordagem mista, combinando métodos quantitativos e qualitativos.
Foram aplicados 522 inquéritos a chefes de agregados familiares nas comunidades de CFM,
Sacra, Samora Machel e Baixo Lugela, complementados por 32 entrevistas a informantes-
chave e observação directa. Os dados quantitativos foram tratados com recurso ao software
STATA, e os qualitativos analisados mediante análise temática. Os resultados demonstram que
as comunidades de Mocuba são marcadas por baixo nível de escolaridade (85%), forte
dependência da agricultura de subsistência (38,7%) e pequenos negócios (26,6%), com 76%
dos lares chefiados por mulheres e 22% com membros com deficiência. Estas condições,
associadas à fragilidade habitacional e à limitada cobertura institucional, intensificam a
vulnerabilidade climática. Em termos de percepção, 62,3% dos inquiridos reconhecem a
ligação entre educação ambiental e redução de riscos, contudo apenas 43% associam
directamente a degradação ambiental à ocorrência de desastres, o que revela lacunas de
conhecimento e prevalência de visões fatalistas. Conclui-se que a educação ambiental, quando
articulada com acções antecipatórias, constitui uma ferramenta essencial para reduzir
vulnerabilidades, promover práticas preventivas e reforçar a resiliência comunitária. Em
função dos resultados recomenda-se: (i) a implementação de programas contínuos de educação
ambiental em línguas locais; (ii) a integração de conteúdos ambientais nos currículos escolares
e nos programas de alfabetização de adultos; (iii) o fortalecimento dos Comités Locais de
Gestão de Riscos de Desastres (CLGRD) com recursos técnicos e financeiros adequados; (iv)
a criação de clubes ambientais escolares e comunitários; e (v) o reforço da coordenação
multisectorial entre o Governo, INGD, ONGs e líderes comunitários. Os resultados obtidos
oferecem evidências empíricas relevantes para políticas públicas, contribuindo para o debate
académico sobre a integração da educação ambiental na gestão de riscos de desastres em
Moçambique, num contexto de mudanças climáticas crescentes e desafios de adaptação local.