| dc.description.abstract |
Introdução: A enterocolite necrosante (ECN) é uma das emergências gastrointestinais mais
graves do período neonatal, associada a elevada morbilidade e mortalidade, sobretudo em recém-
nascidos pré-termo e de baixo peso ao nascer. Apesar da relevância clínica da ECN, a evidência
científica sobre os factores associados à sua ocorrência em Moçambique permanece limitada, com
ausência de estudos nacionais publicados que explorem de forma abrangente esta problemática,
justificando a realização do presente estudo.
Objectivo: analisar os factores associados à ocorrência de enterocolite necrosante em recém-
nascidos internados no Serviço de Neonatologia do Hospital Central de Maputo, no período de
2017 a 2020.
Metodologia: Estudo observacional, analítico, do tipo caso-controlo, não pareado, retrospectivo e
quantitativo, baseado em dados secundários obtidos mediante revisão de processos clínicos. A
amostra, calculada com base numa prevalência estimada de 50% e seleccionada por conveniência,
incluiu 384 recém-nascidos, sendo 152 casos com ECN e 232 controlos sem a doença. Foram
analisadas variáveis demográficas e clínicas maternas, perinatais e neonatais, variáveis clínico-
assistenciais prévias e à admissão, práticas alimentares, bem como desfechos clínicos. A análise
estatística foi realizada no IBM SPSS versão 20, utilizando o teste do Qui-quadrado e regressão
logística binária, considerando-se significância estatística IC 95% e p < 0,05.
Resultados: A enterocolite necrosante ocorreu com maior frequência e esteve estatisticamente
associada a recém-nascidos pré-termo, de muito baixo peso ao nascer e com índice de Apgar
moderada ou gravemente deprimido, quando comparados aos controlos. Entre os factores clínicos
maternos durante a gestação, a infecção crónica pelo HIV (OR = 3,02; IC95%: 1,57 – 5,78; p =
0,001), e os distúrbios hipertensivos da gravidez (OR = 2,21; IC95%: 1,25 – 3.93; p = 0,007)
associaram-se significativamente à ocorrência de ECN.
A exposição a tratamentos tradicionais prévios ao internamento apresentou forte associação com
ECN (OR = 36,33; IC = 4,80 – 274,88; p = 0,001). O aleitamento materno exclusivo e o leite
humano doado do banco de leite mostraram efeito protector, enquanto a exposição à fórmula
X
infantil, antes e durante o internamento, aumentou significativamente o risco da doença (OR
variando entre 10,02 e 17,64; p < 0,01).
O início tardio da alimentação enteral, particularmente após 72 horas de internamento, esteve
fortemente associado à ocorrência de ECN (OR = 16,19; IC = 3,62 - 72,50; p < 0,001). A
mortalidade foi superior entre os casos de ECN, especialmente em recém-nascidos muito pré-
termo, de extremo baixo peso, com Apgar deprimido e com quadros clínicos de curta duração e
elevada gravidade. As variáveis demográficas maternas não apresentaram associação
estatisticamente significativa com a ECN.
Conclusões: A ECN associou-se a factores potencialmente preveníeis, destacando-se a
prematuridade, o baixo peso ao nascer, o Apgar deprimido, as condições clínicas maternas e as
práticas alimentares inadequadas. O reforço do seguimento pré-natal, da referenciação neonatal
precoce e da promoção do aleitamento materno, incluindo o uso do banco de leite humano, poderá
contribuir para a redução da mortalidade neonatal associada à ECN em Moçambique |
en_US |
| dc.description.resumo |
Introduction: Necrotizing enterocolitis (NEC) is one of the most severe gastrointestinal
emergencies in the neonatal period, associated with high morbidity and mortality, particularly
among preterm and low birth weight newborns. Despite its clinical relevance, scientific evidence
on factors associated with NEC in Mozambique remains limited, with no published national
studies comprehensively addressing this condition, justifying the present study.
Objective: To analyze factors associated with the occurrence of necrotizing enterocolitis among
newborns admitted to the Neonatology Service of Maputo Central Hospital from 2017 to 2020.
Methods: An observational, analytical, retrospective case–control study with a quantitative
approach was conducted, based on secondary data obtained through the review of medical records.
The sample calculated using an estimated prevalence of 50% and selected by convenience,
included 384 newborns, comprising 152 NEC cases and 232 controls without NEC. Maternal
demographic and clinical variables, perinatal and neonatal characteristics, pre-admission and
admission-related clinical factors, feeding practices, and clinical outcomes were analyzed.
Statistical analysis was performed using IBM SPSS version 20, applying the Chi-square test and
binary logistic regression. Statistical significance was set at IC 95% and p < 0.05.
Results: Necrotizing enterocolitis occurred more frequently and was significantly associated with
preterm birth, very low birth weight, and moderately or severely depressed Apgar scores, when
compared to controls. Among maternal clinical factors during pregnancy, chronic HIV infection
(OR = 3,02; IC95%: 1,57 – 5,78; p = 0,001) and hypertensive disorders of pregnancy (OR = 2,21;
IC95%: 1,25 – 3.93; p = 0,007) were significantly associated with the occurrence of NEC.
Exclusive breastfeeding and donor human milk from the human milk bank demonstrated a
protective effect, whereas exposure to infant formula before and during hospitalization
significantly increased the risk of NEC (OR ranging from 10.02 to 17.64; p < 0.01). Delayed
initiation of enteral feeding, particularly after 72 hours of hospitalization, was strongly associated
with NEC (OR = 16,19; IC = 3,62 - 72,50; p < 0,001). Mortality was higher among NEC cases,
especially in extremely preterm newborns, those with extremely low birth weight, depressed Apgar
XII
scores, and severe early clinical presentations. Maternal demographic variables were not
significantly associated with NEC.
Conclusions: Necrotizing enterocolitis was associated with potentially preventable clinical and
care-related factors, including prematurity, low birth weight, depressed Apgar scores, maternal
clinical conditions, and inadequate feeding practices. Strengthening prenatal care, early neonatal
referral, and the promotion of breastfeeding, including the use of human milk banks, may
contribute to reducing NEC-related neonatal mortality in Mozambique. |
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