Abstract:
INTRODUÇÃO: A profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) constitui uma estratégia importante
de prevenção do HIV entre populações-chave, incluindo mulheres trabalhadoras de sexo. Contudo,
persistem desafios relacionados com a adesão à PrEP, as percepções sobre a sua eficácia e a forma
como essas percepções influenciam práticas associadas à exposição a outras infecções de
transmissão sexual (ITS). A compreensão dessas percepções e práticas é fundamental para
fortalecer as estratégias de prevenção combinada e melhorar a eficácia das intervenções dirigidas
a populações vulneráveis. Neste contexto, o presente estudo teve como objectivo examinar como
a adesão à PrEP é percebida e vivida por mulheres trabalhadoras de sexo e de que forma essas
percepções e práticas se articulam com contextos de exposição a outras infecções de transmissão
sexual.
METODOLOGIA: Foi realizado um estudo qualitativo retrospectivo, baseado na realização de
entrevistas individuais e discussões em grupo focal. A selecção dos participantes foi intencional,
visando incluir diferentes actores envolvidos na implementação e utilização da PrEP. Participaram
no estudo mulheres trabalhadoras de sexo que aderiram ou não à PrEP, profissionais de saúde do
Centro de Saúde da Matola C e membros da associação Ungagodoli, organização comunitária
responsável por actividades de mobilização e apoio à adesão à profilaxia. Os dados foram
analisados através de análise de conteúdo, permitindo identificar percepções, experiências e
práticas associadas à utilização da PrEP e à exposição a infecções de transmissão sexual.
RESULTADOS: Os resultados mostram que o perfil sociodemográfico das mulheres
trabalhadoras de sexo participantes no estudo é heterogéneo, embora predomine o perfil de
mulheres jovens, solteiras, com escolaridade básica ou técnica e dedicadas exclusivamente ao
trabalho sexual. As atitudes em relação à PrEP revelaram, de modo geral, valorização da adesão
como estratégia de prevenção do HIV, embora persistam dúvidas e resistências associadas à
aparência dos medicamentos, à percepção da sua eficácia e ao receio de estigma social ou reacção
de parceiros. As percepções sobre a PrEP demonstraram evolução ao longo do tempo,
particularmente após as actividades de mobilização e sensibilização realizadas pela associação
Ungagodoli em colaboração com o Centro de Saúde da Matola C. A PrEP passou a ser
predominantemente percebida como um mecanismo de prevenção do HIV, embora tenham sido
também mencionadas limitações relacionadas com a necessidade de testagem regular, deslocação
aos serviços de saúde, estigma e possibilidade de interrupção do tratamento. Foram igualmente
relatados casos de infecções de transmissão sexual entre mulheres usuárias da PrEP, incluindo
gonorreia, sífilis, clamídia e tricomoníase, bem como casos de reincidência. Esses relatos sugerem
a persistência de comportamentos e contextos de risco, tais como o não uso consistente de
preservativos, multiplicidade de parceiros, dificuldades na negociação do uso do preservativo com
clientes e parceiros, consumo de álcool ou drogas e procura infrequente de serviços de diagnóstico
e tratamento de ITS. CONCLUSÕES: Os resultados indicam que as percepções e práticas associadas à utilização da
PrEP entre mulheres trabalhadoras de sexo são influenciadas por um conjunto de factores
individuais, relacionais e estruturais. Embora a PrEP seja amplamente reconhecida como uma
estratégia eficaz de prevenção do HIV, persistem crenças, percepções e condições contextuais que
podem influenciar comportamentos relacionados com a exposição a outras infecções de
transmissão sexual. A relação entre a utilização da PrEP e a ocorrência de ITS revela-se complexa
e mediada por factores sociais, percepções individuais e dinâmicas relacionais, não sendo possível
afirmar que a adesão à profilaxia esteja directamente associada ao aumento ou à redução dessas
infecções. Os resultados sugerem a necessidade de fortalecer estratégias de prevenção combinada
que integrem a promoção da PrEP com intervenções educativas, comunitárias e estruturais
voltadas para a redução do risco e para o reforço do acesso a serviços de prevenção, diagnóstico e
tratamento de ITS entre mulheres trabalhadoras de sexo.