Abstract:
Este estudo analisou os desafios enfrentados pelos provedores de saúde na implementação das estratégias
de apoio psicossocial (APSS) às pessoas vivendo com HIV/SIDA (PVHIV), no contexto da pandemia da
COVID-19, no Hospital Distrital da Massinga, entre 2020 e 2021.
A investigação utilizou uma abordagem qualitativa de natureza descritivo-analítica, com desenho
fenomenológico. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com profissionais de saúde envolvidos
directamente no seguimento clínico e psicossocial de utentes em TARV. A análise dos dados foi guiada por
categorias temáticas, articulando os depoimentos dos participantes com os referenciais normativos
nacionais, como os Procedimentos Operacionais Padrão para o APSS em contexto de emergência (MISAU,
2020-2021).
Os resultados revelaram uma profunda transformação nas práticas de cuidado: as abordagens anteriormente
centradas em vínculos presenciais, grupos de apoio e visitas comunitárias foram substituídas por estratégias
improvisadas de aconselhamento por telefone, integração em consultas clínicas e adaptações não previstas
nos protocolos originais. Dentre os desafios apontados, destacam-se a ausência de capacitação específica,
fragilidades tecnológicas, descontinuidade do vínculo terapêutico, perda de confidencialidade e a retracção
dos serviços psicossociais. No entanto, também emergiram aspectos positivos, como a introdução e
massificação de modelos diferenciados de serviços (MDS), a entrega descentralizada de ARVs e a
revalorização do papel comunitário na adesão ao tratamento.
Conclui-se que a pandemia evidenciou tanto as vulnerabilidades estruturais do sistema de saúde quanto a
sua capacidade de resiliência. A crise sanitária impulsionou inovações importantes, mas também expôs a
necessidade de institucionalizar o APSS como componente essencial da resposta ao HIV/SIDA,
especialmente em tempos de emergência. A continuidade do cuidado, a escuta qualificada e o suporte
emocional às PVHIV e aos próprios provedores devem ser reconhecidos como pilares fundamentais para a
sustentabilidade das políticas de saúde pública.