Abstract:
A epidemia do HIV em Moçambique afecta desproporcionalmente as populações-chave,
incluindo as Mulheres Trabalhadoras do Sexo (MTS). A introdução da Profilaxia Pré-
Exposição (PrEP) como estratégia biomédica de prevenção do HIV representa um avanço
relevante, mas sua eficácia depende directamente da adesão contínua mediada por factores
sociais, estruturais e relacionais em que as utentes vivem. Este estudo qualitativo tem como
objectivo explorar os factores que facilitam ou dificultam a continuidade da PrEP entre MTS
nas cidades de Inhambane e Maxixe, com o objectivo de gerar evidências para políticas e
práticas mais inclusivas.
A investigação decorreu entre Março e Abril de 2025, através de entrevistas semiestruturadas
com 18 MTS (10 em uso activo e 8 que descontinuaram) e 7 profissionais de saúde,
educadoras de pares, técnicos de medicina geral e enfermeiras da saúde materno-infantil. A
amostragem foi intencional e em cadeia (bola de neve). Os dados foram analisados
tematicamente usando o software NVivo, adoptando uma abordagem mista (dedutiva e
indutiva), com codificação cruzada para assegurar validade analítica.
Os resultados revelaram que a adesão sustentada está fortemente relacionada à percepção de
risco, confiança nos profissionais de saúde e ao suporte contínuo das educadoras de pares.
Estratégias simples, como lembretes e explicações claras, fortaleceram a motivação e as
habilidades comportamentais para manter a medicação. Contudo, persistem barreiras
significativas: estigma associado à PrEP (especialmente por confusão com o medicamento
antirretroviral usado para o tratamento de HIV), efeitos colaterais não esclarecidos, horários
incompatíveis, mobilidade laboral e falta de seguimento activo.
A discussão evidencia que a adesão à PrEP vai além da motivação individual, dependendo
da interacção entre informação, motivação e suporte institucional, conforme o Modelo
Informação-Motivação-Comportamento (IMB). O estudo destaca que a continuidade da
PrEP é viável quando apoiada por serviços de saúde empáticos, práticas de acolhimento e
acompanhamento activo. Recomendações incluem a reformulação da embalagem da PrEP,
horários flexíveis, reforço das educadoras de pares e integração com outros serviços de saúde
sexual e reprodutiva.
Conclui-se que o sucesso da PrEP entre MTS em Inhambane exige um compromisso
institucional que reconheça as especificidades desta população, investindo em práticas de
cuidado inclusivas, estratégias comunitárias e políticas de saúde pública ajustadas à
realidade social e laboral das MTS. O estudo evidencia que a continuidade do uso da PrEP
está menos relacionada a uma motivação individual estática e mais condicionada à
responsividade dos serviços — ou seja, à capacidade do sistema de saúde de acolher de
forma sensível as experiências das utentes, adaptar suas abordagens às realidades vividas
pelas mulheres trabalhadoras do sexo, e garantir um seguimento próximo, flexível e
humanizado ao longo do tempo